Top 5: Regras Literárias que Ignoro

domingo, outubro 29, 2017

Hoje temos um post com potencial de polêmicas.
Ainda bem que já deixei pipoca pronta.
Sinceramente, sou muito a favor do estudo. Como já falei em inúmeros posts, tenho toneladas de links salvos nos favoritos para consultar quando necessário, compro livros quando dá e, quando acho um bacana, me jogo de cabeça em cursos e/ou oficinas de escrita criativa. Sempre aprendo algo novo, sempre descubro algo que ainda posso melhorar na minha escrita.
Porém já me deparei com algumas regras que, no fundo, ou não passavam de gosto pessoal de quem estava escrevendo sobre a escrita, ou não era algo que determinasse qualidade de uma história. É complicado separar uma regra válida de mera opinião e eu sou da ideia de que devemos testar tudo quando se trata de fazer arte, já que é algo bem subjetivo e que funciona de maneiras diferentes para cada um, mas foi justamente através dos testes que percebi que, pelo menos no meu processo criativo, algumas delas não são tão úteis e podem ser ignoradas sem dó.
Não lembro onde li todas, nem os nomes daqueles que as postularam, mas estão aí. E não negue: sei que você ignora algumas também.
Agora senta aí e vamos dividir essa pipoca à espera do problema.


5) "Escreva apenas sob um único ponto de vista"
Eu entendo o motivo de essa regra existir, sobretudo o fato de ela ser sempre indicada a escritores iniciantes, mas... Dá, sim, para escrever algo pela visão de vários personagens e, ainda assim, deixar a trama interessante e passar a ideia com clareza para quem está lendo.
"As Crônicas de Gelo e Fogo" estão aí para provar isso.
O segredo é seguir outras regrinhas: apenas dar capítulos ou cenas para personagens importantes com coisas relevantes para contar; fazer a cena ou o capítulo inteiro pelo ponto de vista de apenas um personagem e trocar apenas no capítulo/cena seguinte; colocar separadores de cenas sempre que mudar o POV, etc.

4) "Sempre mostre, nunca conte"
A razão por trás dela é deixar o texto mais interessante para o leitor e permitir que ele tire suas próprias conclusões sobre o que está ali, sem que você fique indicando o tempo todo o que ele deve sentir, ver, etc. Usando exemplos, essa regra quer dizer que, ao invés de dizer que seu personagem está feliz, você o mostre sorrindo, com os olhos brilhando.
Eu entendo e adoro essa regra (embora ainda não consiga seguir em todos os momentos necessários e precise revisar bastante alguns trechos). Meu problema vem é com as palavrinhas "sempre" e "nunca" porque há situações em que seria melhor que você contasse o que está acontecendo para seu texto não ficar repetitivo e entediante.
Para que descrever de maneira detalhada a rotina matinal do personagem todas as vezes? De que servirá saber todo o itinerário de uma viagem longa se todas as paisagens são parecidas? Basta falar em um momento, na primeira ocorrência, e passar por cima do resto.
Não preciso ficar mostrando o tempo todo coisas que não são relevantes para história. Posso sumarizá-las e contá-las de maneira resumida (por exemplo, quando os dias passam sem que nada interessante para o enredo ocorra) para economizar páginas e mostrar apenas o que realmente importa.

3) "Evite adjetivos, advérbios e verbos de pensamento"
Essa regra acaba se relacionando com a anterior porque essas palavras são, geralmente, usadas para "contar" coisas. Acabam não servindo à noção de mostrar.
E, como já vimos, contar é importante em alguns momentos. Além disso, não sou muito partidária da ideia de cortar toda incidência de algumas palavras. Gosto mais de equilibrar coisas.
Muitos advérbios terminados em "-mente" por exemplo, são irritantes quando usados muito perto, mas usar um aqui e outro ali (em minha opinião) não tem problema. Mesma coisa com adjetivos: três deles para o mesmo substantivo é dose de aguentar, mas uma descrição bem feita com alguns deles não mata ninguém.

2) "Tenha somente um protagonista"
De novo uma regra que procura evitar confusões e facilitar o trabalho do autor na hora de criar sua história. Porém já sabemos de inúmeros exemplos de histórias com vários protagonistas bem sucedidas que cumprem bem sua função de entreter com um enredo claro e limpo, sem enrolação. Principalmente em seriados.
O segredo é aprofundar os personagens, dar a eles características que os diferenciem entre si (e vale pra todo personagem, ok?). Quando cada personagem tem uma voz, o leitor o reconhece sem maiores problemas. Não é algo fácil (eu tenho BASTANTE dificuldade com isso ainda), mas é possível. Estudo e treino ajudam muito. Faça isso sempre ;)

1) "Você é brasileiro(a). Escreva apenas histórias ambientadas no Brasil"
Essa me irrita, preciso confessar.
Eu sei que o Brasil ainda é meio desvalorizado e muita gente acha um lixo, critica tudo e afins, mas... Não é proibindo as pessoas de escreverem em outros lugares que vamos mudar isso.
Também acho super bacana quando vejo uma história ambientada em nosso país, principalmente quando é boa e o tom do texto casa perfeitamente com o local escolhido, mas não acho que isso deva ser uma obrigação.
Assim como eu amo ler desde sempre, mas odiava ter que fazer isso na escola porque as leituras me eram impostas; detesto ter que fazer algo porque estão cobrando de maneira sacal, exigindo como se eu tivesse obrigação de escrever o que essa pessoa quer ler.
Spoiler: não tenho. Escrevo apenas aquelas histórias que me cativam. Todo o resto vai pro limbo, não importa a ambientação, o tema, o enredo ou o personagem.
Implico bastante quando alguém resolve escrever algo lá fora sem a devida pesquisa (se você não "perdeu" tempo pesquisando e estudando sobre o lugar, não espere que eu vá gastar o meu lendo sua história, mil desculpas) ou coloca título em outra língua com um erro feio de ortografia ou gramática, mas de resto, aceito tudo. O que importa para mim é o conteúdo, o enredo, os personagens, a escrita da pessoa... Todo o resto é mero detalhe.
Escrevo e leio histórias que se passam fora e dentro do Brasil, já vi coisa boa e ruim nas duas ambientações, e não vejo como apenas o lugar pode definir qualidade.
E se algo não impacta diretamente na qualidade, eu ignoro mesmo.


Antes de ir embora, quero apenas deixar claro: nunca ignorem algo apenas porque vai contra o que vocês fazem, sem refletir sobre ela e sem se testar. O escritor é, antes de tudo, um pesquisador e estudioso sobre sua arte. Não feche os olhos apenas porque a regra pisa em seu ego. Eu mesma tentei fingir que a "cada personagem precisa ter sua própria voz" não existia e tomei um "e esse bando de personagem mal desenvolvido tudo igual aqui?" na fuça. Hoje é a coisa que mais prezo em uma história.
Não façam isso.
Estudem bastante e aprendam porque essa regra existe e qual problema ela quer resolver. Depois disso, testem em sua escrita para ver se ela realmente funciona com vocês. Só depois de entender tudo isso e, ao praticar, verificar que ela não contribuiu tanto assim pro seu processo é que está ok deixá-la de lado. Ignore, mas faça isso conscientemente.
Por exemplo, há uma diferença enorme entre o autor que não planeja porque já tentou e viu que regular tudo não funciona para facilitar seu processo criativo e o que não faz isso por preguiça. O primeiro tende a escrever algo bom, com todos os fatos conectados e os mistérios resolvidos, mesmo improvisando tudo; e o segundo, a fazer uma obra cheia de furos e inconsistências (porque dificilmente se mobilizará para fazer uma boa revisão por causa dessa preguiça toda).
Mas e vocês, galera? Que regras de escrita seguem e quais deixam de lado na hora de escrever? Alguma dessas daqui vocês seguem piamente (sem tretas rs)?
Deixem aqui nos comentários e até semana que vem com... os semanários do NaNoWriMo ♥ OMG, JÁ VAI COMEÇAR! SOCORRINHO!!!

5 comentários:

  1. Hey, Michele! Tudo bem?
    Olha quem voltou?! Mesmo tendo um lindo e maravilhoso teste de filosofia me esperando esta terça...
    Admito, que a parte destas regras eu nem sabia que eram regras ahahah
    A minha primeira fanfic foi aquele caos vergonhosíssimo, sabe? Tudo misturado, enfim... Escrevia sob os pontos de vista do casal protagonista, maioritariamente da garota e muito raramente sob o de outro personagem. Acabei por abandonar completamente conforme fui evoluindo e quando revisei as mais antigas, eliminei os POV. Sou uma adepta do narrador tipo omnisciente
    Acho que nos igualamos na regra "sempre mostre, nunca conte", é uma maçada repetir tudo, se bem que dar sempre apenas a mostrar dá um dó no coração de não sair por aí a contar tuuuuudo de uma vez </3
    Ai, adjetivos e advérbios e verbos no pensamento ainda é um assunto bem delicado, né? Ahahah E o que dizer de ter um protagonista apenas? A maior parte das minhas histórias fantasiadores é sobre casais, se bem que há umas ideias soltas de criar uma personagem feminina fodástica.
    Ah não! Criar histórias apenas no país em que vivemos é uma merda. Sou portuguesa e escrevo atualmente tudo no PT-PT, antes usava o PT-BR por ler muito histórias criadas por autoras brasileiras. Embora tenha orgulho e amor pelo meu país, não consigo escrever histórias em Portugal. Talvez seja pelo facto de criar as minhas personagens e as suas vidas diferentes da minha, ou com base no que gostaria que a minha vida fosse mas sempre com um toque da minha personalidade. Acho que quem se prende a escrever somente por pressão histórias no seu país fica limitado. Levo as minhas histórias como uma reinvenção, algo diferente de mim, como já referi, algo onde posso mudar as coisas, onde posso viver os meus alter-egos, viver a vida de outras pessoas, porque se fossem iguais à minha vida não seria criar, seria viver a minha vida, seria uma autobiografia...
    Acho que neste assunto podemos também referir a regra de usar frases curtas e a regra de deixar as emoções de fora, e para essa última, "Logo eu, a rainha/fã/obcecada nos dramas dos enredos."
    Bjinhos ♡

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    1. Acabo de me dar conta, mil anos depois, que respondi embaixo, não aqui nas respostas do teu comentário HAUAHAUA Me ignora hahahaha

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  2. Olá, flor. Bem-vinda de volta e espero que tenha ido tudo bem no teste HAHAH <3
    Eu amo escrever com mais de um protagonista, e estou tentando seguir o chamado "ponto de vista profundo" (ou Deep POV), em que mesmo na terceira pessoa você vai fundo da mente do personagem em questão e conta tudo como ele vê, apenas o que ele sabe. Por exemplo, se meu personagem está chegando a um lugar, mas ainda está longe, não tem como ele ver detalhes da fachada da construção. Ele apenas vai conseguir distinguir essas pequenas coisas conforme vai chegando mais e mais perto. Se ele não sabe determinada informação, não devo colocá-la ali. Se ele está analisando as emoções de outro personagem, por exemplo, e essas emoções não estão claras, não posso dizer que o Fulano estava desse ou daquele modo, apenas que ele parece estar desse ou daquele modo. Além disso, tem que tomar bastante cuidado com a forma como se passa informações, porque no deep pov tentamos reproduzir a forma como alguém normalmente pensa e ninguém tem pensamentos do tipo "Fulano de Tal, pai de Beltrano, trabalhava como mecânico de automóveis" hahaha A gente acaba usando bastante o lance do mostrar sem contar aqui. Sai muito mais natural o personagem do deep pov indo pra casa do amigo convidá-lo pra sair, por exemplo, e ele pedir pra passar na oficina do pai antes pra avisar que tá saindo e volta X horas.
    É bem difícil, especialmente para iniciantes (essa última parte da estrutura de pensamento eu apenas sorrio, aceno e finjo que não existe rs), mas eu gostei bastante quando tentei e acho que adapta melhor ao meu estilo de escrita (gosto de manter algumas informações de conhecimento geral, outras só com o leitor e algumas só com os personagens mesmo; então funciona melhor do que um narrador que sabe tudo sobre todo mundo).
    Essa regra de deixar frases curtas eu já vi também, mas uso apenas por preferência. Sou alguém que se distrai fácil e se as frases são MUITO longas, eu me perco e deixo passar detalhes. Já essa das emoções... PFFF Qual a graça de escrever sem passar emoção? Se não for pra escrever e depois tomar banho nas lágrimas dos leitores melhor nem começar HAUAHAUAHAUA
    Muito obrigada pela leitura e comentário <3

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  3. Primeira coisa antes que eu esqueça, não é do post mas ta valendo, eu não sabia que o nome de "ponto de vista profundo"/Deep POV, e aceito mais posts sobre, por motivos de tenho uma história que eu já escrevi o começo em primeira e em terceira e no final acabei rascunhando uma terceira pessoa observando melhor o proto e foi uma coisa maravilhosa de se escrever *.*
    Sobre as regras, a última é sem duvida a que mais me irrita, porque nem no Brasil eu iria escrever algo sem pesquisar, nada me impede de pesquisar sobre outra cultura (e de quebra dar uns fangirling). A de não passar emoções também é meio tensa "logo eu a rainha do drama"+1, até porque quando leio, o que mais gosto é a capacidade de me conectar com um personagem e sentir varias emoções sobre ele.

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    1. Pretendo fazer um post a respeito, só preciso fazer mais algumas pesquisas para poder embasar melhor e faço sim <3 É uma das melhores coisas de fazer, mas é bem difícil, SOCORRO HAUAAHAUAHAU
      E tem esse lado mesmo, a gente precisa pesquisar praticamente tudo, não importa em que lugar se passe. Nada nos impede de construir bem algo em outro país com uma boa pesquisa.

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